quinta-feira, 3 de abril de 2008

" E que o Chico Buarque de Hollanda nos resgate..."

Dia desses ouvi uma música no rádio que sinceramente deixou-me muito preocupado. A música era de uma dupla sertaneja de enorme sucesso chamada Vitor e Léo. Não sei qual é o nome dela, e também não interessa saber, mas sei que ela dizia uma coisa assim:

“Que vida boa,
Sapo caiu na lagoa...”


Deixou-me preocupado pelo fato de imaginar até onde vai essa pobreza lírica da música popular brasileira atual. Não sou nenhum grande conhecedor de literatura, mas só de pensar que já tivemos na nossa música poetas e letristas do nível de Chico Buarque, Caetano Veloso e Vinícius de Moraes fazendo sucesso nas rádios e na cabeça do povo, hoje, infelizmente, temos de aturar coisas como essa que eu acabei de citar.

Caetano tem toda razão. Tomara que não só o Chico Buarque nos resgate, mas que novos compositores não tentem e não consigam piorar o que já está muito ruim.


E xeque-mate!



quinta-feira, 6 de março de 2008

Tropicália

Bem, depois de um longo tempo sem postar até parece que eu esqueci desse blog, mas não, é porque não estive muito inspirado para escrever aqui ultimamente, mas enfim, estou aqui e trago mais uma dica de leitura.
Ganhei de presente da minha mãe um livro de uma qualidade excepcional. Falo do livro Tropicália: uma revolução na cultura Brasileira.

Este livro foi lançado em 2007 em homenagem aos 40 anos de Tropicália e é um documento riquíssimo para os adoradores do movimento. Um projeto altamente bem feito e organizado por Carlos Basualdo. Faz uma perspectiva geral do que foi o Tropicalismo em suas diversas áreas da cultura.
No livro são inseridos ensaios contemporâneos escritos por Carlos Basualdo, Flora Süssekind, Ivana Bentes, Celso Favaretto, Christoper Dunn e Hermano Vianna falando de música, cinema, artes plásticas, literatura e tudo mais o que diz respeito a tropicália.
Também é constituído de uma coletânea de textos históricos dos principais nomes do movimento, nomes como Caetano Veloso, Hélio Oiticica, Torquato Neto, Gilberto Gil, Glauber Rocha e grandes incentivadores e “companheiros” como Oswald de Andrade, Augusto de Campos, Nelson Motta além de um acervo de fotos muito rico.
Além de um design moderno é um livro bonito, cheio de cores e conteúdo. O preço ainda é um pouco salgado, mas faz jus à qualidade. Vale a pena conferir.



Foto da capa do disco-manifesto do Topicalismo que reunia grandes artistas como Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa, Rogério Duprat, Nara Leão - sim, ela esta aí - , Caetano Veloso e os Mutantes.





















sábado, 13 de outubro de 2007

How The West Was Won


No post de hoje resolvi fazer uma recomendação. Já deixei claro que sou um grande fã do Led Zeppelin, tenho quase todos os álbuns e tenho os dois DVD’s que foram lançados. Um é o The Songs Remains the Same - registro digital do filme lançado em 1976, que além do seu contexto cinematográfico traz o – monstruoso - show no Madison Square Garden em NY no ano de 1973. Mas não é sobre ele que venho falar, e sim, do DVD How The West Was Won lançado em 2003 pela Atlantic Records. Este material resgata imagens e áudio de shows, participações em programas de rádio e televisão, entrevistas e alguns videoclips ao longo da carreira do Led Zeppelin. Com uma duração total de mais de cinco horas, a maioria do material é dos shows no Royal Albert Hall 1970, o já citado Madison Square Garden 1973, Earls Court 1975 e Knebworth 1979. A performance no Albert Hall é a mais intensa – em minha opinião, a banda tinha um pouco mais de um ano, o show foi feito três meses depois do lançamento do álbum Led Zeppelin II, segundo álbum do Led, e mostra a banda ainda com aquele instinto Blues-Rock, cru e intenso dos dois primeiros discos. Deste show eu destaco I Can’t Quit You Baby e Bring It On Home, destaco também a incrível e emocionante performance de Jimmy Page em Since I’ve Been Loving You no Madison Square Garden, Bron Yr Aur Stomp em Earls Court e Kashimir em Knebworth. Enfim, esse registro é imprescindível para um fã de Led Zeppelin. Mostra a banda em todas as suas fases, grandes momentos e, tudo mais o que confirma o Led como uma das maiores bandas de Rock já existentes. Fica aí a dica.





capa do DVD How The West Was Won

terça-feira, 11 de setembro de 2007

COME TOGETHER










Esse com certeza é um dos discos da minha vida. O Abbey Road na minha opinião é o disco mais bem produzido dos Beatles, melhor estruturado.
O álbum foi o mais vendido da história dos Beatles. Foi marcado por ser o último a ser gravado por eles - finalizado e lançado em 1969. Porém foi o penúltimo a ser lançado. O “Let it Be”, último e derradeiro álbum, foi gravado meses antes – em Janeiro de 69, mas foi lançado em 1970, depois do Abbey Road.
Também foi marcado pela forte divergência entre os integrantes. Há quem diga que isso foi o fator especial para o sucesso do disco, que em termos de produção acabou sendo uma das melhores dos Beatles, ao lado de Sgt. Pepper’s. Começando pela capa do álbum – umas das mais clássicas de todos os tempos. A foto tirada do lado de fora da gravadora, que levava o nome de Abbey Road, alimentou ainda mais a famosa lenda da morte de Paul Mcartney.






Neste álbum duas músicas me deixam completamente orgulhoso de conhecer e gostar de Beatles, Something – minha música preferida do disco – e I Want You (She’s so Heavy). Something é uma balada perfeita, com uma belíssima melodia e belíssima harmonia. Sem dúvida, é a melhor composição de Harrison. Elogiada e regravada por Frank Sinatra. I Want You ( She’s so Heavy) me impressiona com seu arranjo e sua intensidade, principalmente com aquele final inesperado, quando a música acaba e te deixa completamente sem fôlego.
Também quero citar a o grande arranjo de Come Together, música que abre o disco e é um dos clássicos dos Beatles, o belíssimo jogo vocal e grande harmonia de Because, e a famosa seqüência Golden Slumbers/ Carry That Weight / The End, que também te faz ficar sufocado e tira uma lágrima de seu olho.
Se diante de todos esses atributos você ainda não se convenceu da grande qualidade do Abbey Road, por favor, ouça esse disco. Garanto que ele faz parte todas das famosas listinhas dos “5 mais” de qualquer Beatlemaníaco.








Brincadeirinha dos Simpsons com o Abbey Road.




Falou!


sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Voltei a postar!

Essa semana eu terminei de ler o livro “Chega de saudade: A história e as histórias da Bossa Nova”, do autor Ruy Castro, de 1990.
O livro, que obviamente narra a trajetória da Bossa Nova, também fala do movimento cultural e musical pré-Bossa, os anos 40 e 50, e conta a história de João Gilberto - o homem Bossa Nova - desde a sua infância em Juazeiro, sua ida para o Rio de Janeiro e o incrível disco Getz/Gilberto. Além de falar de outras importantes figuras: Tom Jobim, Vinícius de Morais, Roberto Menescal, Nara Leão, etc. Ruy Castro descreve perfeitamente o movimento das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, mostrando os bares e boates por onde passou a Bossa Nova. O mais legal do livro é que a cada página, você sente como estivesse em pleno calçadão em Copacabana, ouvindo o LP Chega de Saudade e vivendo as histórias de perto. Grandes momentos como o memorável concerto no Carnegie Hall e o encontro - e que encontro - entre Frank Sinatra e Tom Jobim também fazem parte dessa viajem.
Enfim, o livro é uma completa releitura da Bossa Nova. Para quem se interessa ou para quem deseja conhecê-la, é uma ótima recomendação. Traz fotos dos artistas, dos discos, e mostra um mapa dos lugares por onde a Bossa Nova marcou.
Sem mais detalhes, leia o livro.






terça-feira, 3 de julho de 2007

Crônica

Bem, essa é uma crônica de minha autoria. Crônica que eu fiz como atividade da faculdade e achei interessante colocar aqui no blog (já que ela foi muito elogiada). Não é nada muito complexo não, é bem singela, um pouco clichê...veja só.


Lembrei!

Começo o dia olhando a minha cara amarrotada no espelho. O sono, a preguiça, se confunde com a minha pouca beleza. Nunca vi coisa tão feia! Mas nada que um bom banho quente não resolva. Ficar ali parado embaixo do chuveiro por uns dez minutos, maravilha! Porém me vem a triste lembrança de que o chuveiro queimou na semana passada e eu sequer tomei uma providência. O jeito é tomar esse maldito banho frio!
Depois desse banho doloroso e congelante, o que resta é tomar aquele café quentinho, pães frescos e companhia. Mas, surge outra triste lembrança, ainda tenho que fazer esse bendito café! Que saudades daqueles tempos em que eu morava com minha mãe! Tempos em que após um banho quente a mesa do café estava lá, pronta, com tudo que era necessário para começar bem o dia.
De banho e café mal tomados saio de casa, chamo o elevador, e outra lembrança vem à cabeça, o elevador está em manutenção, o síndico pediu um dia para consertar-lo. O que resta é enfrentar as escadas. O duro não é descer nove andares até a garagem, e sim subi-los na hora da volta.
Chego à garagem do prédio e novamente outra lembrança, o carro foi para o conserto. Problema no radiador de novo! Seu Manel falou que em dois dias resolvia o problema. O que resta é pegar um ônibus. Nunca! Eu odeio andar de ônibus. Aquele calor, aquela confusão, pessoas estranhas que sentam ao seu lado. Sem falar na grande possibilidade de assaltarem o ônibus e depois tacarem fogo com você dentro. Então vou pegar um táxi. É mais caro, porém é mais objetivo e mais confortável.
O dia é estranho, o movimento das pessoas e do trânsito, tudo tão calmo. As lojas não estão abertas, os camelôs do centro não montaram suas barraquinhas. Por um momento pensei que fosse muito cedo, mas olhei no relógio e já são 8:30 da manhã, nesse horário a cidade já está bem acordada. De repente o taxista chama a minha atenção para falar que chegamos. Não demorou nem dez minutos o trajeto casa-trabalho. Geralmente eu faço em vinte minutos. Pago o táxi (cada vez mais caro), e vou em direção a portaria da empresa, quando surge mais outra lembrança, hoje é domingo!


Renan Bono


postagem escrita ao som de:
Volks Volkswagem Blues - Gilberto Gil
One O'Clock last Morning - Gilberto Gil
Refazenda - Gilberto Gil

domingo, 1 de julho de 2007

Texto sobre "Cê", disco do Caetano Veloso

Esse texto (que eu achei interessantíssimo), traça o perfil do mais recente disco do Caetano, lançado em 2006, na visão do Jornalista Paulo Roberto Pires. O disco de um "senhor" de 64 anos (com espírito de um adolescente), que afirma ainda mais a teoria de que o Caetano sempre esteve à frente do seu tempo, e sobretudo mostra a capacidade de renovação desse gênio da música brasileira.
Para você que ainda não ouviu o disco (não sabe o que perde), leia esse artigo e tires suas conclusões (precipitadas ou não). Para você que já ouviu, veja se seus conceitos sobre o "Cê" são os mesmos de Paulo Pontes.
Esse texto também está disponível no site do caetano. www.caetanoveloso.com.br





Duas ou três coisas que Cê i delePaulo Roberto Pires - No.Mínimo15/09/2006

“Cê” andou dando umas voltas pelo CD player do colunista. Pelo iPod do colunista. No carro do colunista. É, é daqueles CDs que tem que ouvir direito, “entrar no disco”, como a gente fala quando não consegue definir o que ouve – ou evita falar mal do que percebe. Por insistência, entrei no disco. E, se o que ouvi lá não leva aos orgasmos múltiplos que Caetano, fescenino neste disco, diz invejar nas mulheres, dá um bocado o que pensar.

“Cê” é um disco de Caetano para o público do Los Hermanos como “A foreign sound” era um disco de Caetano para o público de Rod Stweart, o velho, crooner dos standards. Enfrenta, destemido, as modetes como já enfrentou o brega. Dizer, como se diz, que isso é um “eterno tropicalismo”, uma espécie de coerência atemporal, barateia injustamente a inquietação do cantor.


“Cê” traz 12 canções inéditas, todas dele e só dele. Metade dos versos tem inflexões lúbricas e metáforas, comparações e imagens idem: “feliz e mau como um pau duro”, “mucosa roxa, peito cor de rola”, “todas mucosas pra mim”, “tua ilharga lhana/ mamilos de rosa-fagulha”. Se fosse romancista, Caetano seria o Philip Roth dos últimos anos.

“Cê” é “sujo” e esta é uma de suas grandes virtudes. Som pesado, ligado na cena indie carioca. Caetano, lembrando Jorge Mautner, é um vampiro, que nunca vai ter paz no coração e por isso há 40 anos alimenta-se sabiamente da energia pop desta e de outras extrações.

“Cê” é um tratado para os que, acima das quatro décadas vividas, expõem-se à poderosa radiação de quem nasceu mais para o fim do século passado. É, todo ele, parente de “Gatas extraordinárias”. É todo ele puro tesão, mas também inexorável solidão: há lugares que as mucosas não alcançam ou satisfazem. “Com você eu tenho medo de me apaixonar/ eu tenho medo de não me apaixonar/ tenho medo dele, tenho medo dela/ os dois juntos onde eu não podia entrar”, canta ele para a “Deusa urbana” .

“Cê” também é ódio e vingança, daqueles que só se cultiva por quem se gosta. A pancadaria de “Rocks” bota dedo na cara: “tu é gênia, gata, etcetera/ mas cê foi mesmo rata demais/ meu grito inimigo é:/ você foi mor rata comigo”.

“Cê” transforma numa festa rave o crepúsculo do macho. Caetano, que já foi neguinha, é muito espada neste disco. Nos anos 80, o “Homem velho” era protagonista melancólico da canção que dizia: “a brisa leve/traz o olor fugaz/ do sexo das meninas”. Agora o homem velho é ele, mas desfila “feliz e mau como um pau duro”.

“Cê” roça sua língua na língua e, principalmente, em outras partes de Luiz de Camões. Baixão ao fundo, sotaque de fadista techno, repete em “Por quê?” três versos: “Estou-me a vir/ e tu como é que te tens por dentro?/ por que não te vens também?” Bocage pega Florbela Espanca e se acaba numa noite na Fosfobox. O que quer uma mulher? E um homem?

“Cê” transborda tesão temperado pelas mancadas de uma vida. E é dolorido no balanço do casamento acabado, o baladão “Não me arrependo”: “não, nada irá nesse mundo/ apagar o desenho que temos aqui/ nem o maior dos seus erros/ meus erros, remorsos, o farão sumir”.

“Cê” escancara biografia em “Waly Salomão”, lamento pela morte do amigo, pontuado pelos tambores que, no saguão imponente da Biblioteca Nacional, foram o adeus do Afroreagge ao poeta baiano: “Meu grande amigo/ desconfiado e estridente/ eu sempre tive comigo/ que eras na verdade/ delicado e inocente”.

“Cê” incomoda as partes baixas e também provoca politicamente com “O Herói”, um rap dilacerante que espatifa as certezas no debate sobre o racismo. É tão forte quanto “Haiti” na narrativa de quem quis “fomentar o ódio racial”, “um olho na Bíblia, outro na pistola” e termina redefinindo-se: “Eu sou o homem cordial/ que vim para instaurar a democracia racial”. Pela mão de Caetano, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre viram parceiros de Mano Brown.

“Cê” está para a Caetano como “Duas ou três coisas que sei dela” estava para Jean-Luc Godard. Sobre seu filme, o cineasta escreveu: “Deve-se botar tudo dentro de um filme”. Basta revirar o disco: se não está tudo lá, utopia insistente, está lá o desejo de ter tudo – mucosas, luto, orgasmos e luta.