segunda-feira, 2 de junho de 2008

Francis e Antônio



Falar de Frank Sinatra e Tom Jobim pode ser mais fácil do que se parece. Basta imaginar uma coisa: Qual será o resultado da junção entre aquele que é considerado o maior cantor do século 20 com aquele que é considerado um dos maiores músicos da música popular brasileira e, por que não, da música mundial?
É lógico que não pode ser menos que extraordinário. Basta olhar o talento e a história desses dois ícones da música que você não terá dúvidas. E este encontro aconteceu. Depois do enorme sucesso que a Bossa Nova fez no decorrer dos anos 60, inclusive tomando conta da terra do Tio Sam, Tom Jobim começou a ter projeção entre os principais músicos da época. É claro, o maestro da nossa música popular merecia todo o reconhecimento. Basta ouvir e perceber a enorme riqueza musical em suas composições. Melodias impressionantes com harmonias que vão muito além dos acordes dissonantes. Mas, deixando o papo de músico pra lá. Diz a história que Tom estava num bar em Ipanema, o mesmo bar que ele e Vinícius costumavam observar aquela famosa garota que passavam linda e cheia de graça a caminho do mar, quando derrepente o telefone tocou, e era uma ligação para Tom. Do outro lado da linha ninguém mais do que Frank Sinatra, o chamado “The Voice” - perfeito apelido, dizia a Tom que queria gravar um disco com canções feitas pelo próprio Antônio Brasileiro. A resposta de Tom Jobim foi imediata. Logicamente, não havia de recusar tal convite. O encontro entre os dois rendeu um disco, chamado de Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, lançado em 1967. O disco traz dez canções, sendo que sete são de Tom Jobim. As interpretações de Sinatra ficaram excelentes, logicamente, e apesar da presença dele, você vê a Bossa Nova presente no disco. E não teria que ser diferente. As músicas foram passadas para o idioma norte americano. O clássico The Girl From Ipanema (Garota de Ipanema), composição de Tom e Vinícius, teve a letra reescrita por Norman Gimbel e foi lançada no disco Getz/Gilberto, interpretada inicialmente por Astrud Gilberto e João Gilberto em 1963. Corcovado virou Quiet Night of Quiet Stars, a música Inútil Paisagem virou If You Never Come to Me e a música Insensatez virou How Insensitive. De todas as músicas, a minha favorita é a belíssima Dindi. Não tenho como explicar aqui a beleza dessa música, e até me arrisco a dizer que prefiro a versão em inglês. Heresias à parte, durante a gravação do disco músicas além das que foram lançadas no álbum de 67 foram gravadas. Com exemplo dos Clássicos Off Key (Desafinado), Drinking Water (Água de Beber), One Note Samba (Samba de Uma Nota Só), Triste, Wave e outras mais. Em 1979 saiu aqui no Brasil uma edição especial com todas as gravações, inclusive mais duas que nunca saíram em discos anteriores. São as faixas Bonita, escrita por Jobim, e Sabiá, parceria de Chico Buarque e Tom Jobim que ganhou o Festival Internacional da Canção (FIC), em 1968.
Esse encontro rendeu uma participação em um programa no horário nobre da televisão dos EUA, que segundo a lenda, não houve ensaio para a apresentação. Graças a WEB, é possível assistir esse momento. Frank Sinatra e Tom Jobim cantando The Girl From Ipanema. Tom com seu jeitinho brasileiro, sentado no banquinho com seu violão e sua perna cruzada. Reparem bem na maneira como Sinatra interpreta a canção, olhando a letra escrita no chão do estúdio, com o seu cigarrinho na mão e seu jeito inconfundível de cantar.


sexta-feira, 16 de maio de 2008

It's Only Rock 'N' Roll (But I Like It)

Tenho em mãos o livro Sexo, Drogas e Rolling Stones, escrito pela dupla José Emilio Rondeau e Nelio Rodrigues. O livro traz algumas histórias da banda que, segundo os autores, se recusa a morrer. Concordo plenamente. Afinal, são 46 anos de estrada e com certeza muita coisa aconteceu nesse tempo. Mas não estou aqui para falar do livro, porque ainda não li. Estou aqui para falar de Rolling Stones.
Minha relação com eles não foi uma coisa instantânea, como aconteceu com outras bandas e outros artistas. Eu demorei pra gostar de Stones. Lembro que eu era mais moleque e com aquela curiosidade de sempre comprei o até então recém lançado Forty Licks, álbum duplo que traz os principais sucessos da banda. Eu não gostei de muita coisa. Aquilo ainda era muito novo para mim, ou eu era muito novo para aquilo. Sei lá. Eu esperava mais. Também foi a mesma época em que comecei a ouvir Beatles. O fascínio por John, Paul, George e Ringo foi muito maior. Eu não me atrevia a conhecer além dos grandes clássicos. Mas as coisas mudaram e a minha vontade de ouvir coisas novas foi aumentando. Até que eu tomei a iniciativa e comecei a explorar a obra dos Rolling Stones. Foi quando eu descobri um álbum chamado Exile On Main Street.



Eu pirei nesse disco, que hoje considero um dos maiores da história do rock. Lançado em 1972 ele sucedeu dois discos que eu também gosto muito, o Let It Bleed e o Sticky Fingers. Dizem que foi gravado na época em que os Stones estavam na maior fase de consumo de drogas de toda a carreira. Talvez isso tenha contribuído e muito para o resultado final. Lendas a parte, o álbum traz 18 faixas. As duas primeiras já demonstram o mais puro Rock ‘N’ Roll. São músicas com a cara dos Stones. Rock cru e enérgico. O “oh yeah” dito por Mick Jagger na introdução de Rocks Off, acompanhando o riff de Keith Richards, já te deixa no clima, que com a faixa seguinte, Rip This Joint, vai aumentando. A quinta faixa, Tumbling Dice, é um dos hits do disco e traz uma atmosfera legal, que se confirma ainda mais na faixa posterior. A sexta música, Sweet Virginia, é uma das minhas favoritas. Tem um refrão forte, cantado em coro, e quando se junta a sua voz faz com que você se sinta parte da música. Sweet Virginia abre a seqüência acústica do Exile, que também conta com as faixas Torn And Frayed e Sweet Black Angel. A nona faixa é Loving Cup. Ótima balada. Ficou perfeita com a participação do Jack White, da banda White Stripes, no recém lançado filme The Rolling Stones – Shine a Light. A faixa 10, Happy, traz Keith Richards no vocal. Além dessas músicas eu destaco Ventilator Blues, com seu riff muito louco, Stop Breaking Down, do Bluesman Robert Jhonson e, logicamente, Shine a Light com seu clima gospel e que tem nos teclados a participação de Billy Preston, grande múscico que participou de álbuns como o Abbey Road e o White Album dos Beatles, o Sticky Fingers e álbuns posteriores dos Stones. Shine a Light é um dos clássicos do disco.
Exile On Main Street me fez virar um grande fã dos Stones e, além disso, me fez entender porque algumas pessoas dizem que são a maior banda de rock de todos os tempos. Não sei se concordo com essa afirmação. Eu continuo gostando mais de Beatles, mas se tenho que apontar uma banda que traduza melhor a combinação sexo, drogas e Rock ‘N’ Roll, não há dúvida. Essa banda é Rolling Stones.


sexta-feira, 2 de maio de 2008

Cartola - 1976

É até um pouco de ousadia minha falar de samba, já que ainda conheço pouco do que realmente vale a pena ouvir. Uma dessas coisas é o sambista Cartola. Devido a uma feliz curiosidade comprei o segundo álbum dele, de 1976, intitulado Cartola.



Fiquei muito feliz com a descoberta. Sempre ouvi grandes nomes da nossa música falarem da importância de Cartola para a MPB e, principalmente, para o samba, mas até então, não tive a oportunidade de escuta-lo. Ouvi neste disco a simplicidade de um grande sambista e, ao mesmo tempo, a fineza de um grande poeta. Começando pela primeira faixa, O Mundo é Um Moinho, uma das mais belas do disco. Músicas que falam de amor, mas que não são nem um pouco melodramáticas. O próprio compositor dizia que preferia falar de amor e de mulher, que são coisas que realmente são importantes na vida. Mas o que mais me encanta no disco são as melodias criadas por Cartola, melodias que até o maestro Villa Lobos apreciava. A maior prova disso é a faixa As Rosas Não Falam, que veio a se tornar uma das canções mais conhecidas do compositor. Com razão. E, logicamente, o poeta fala do seu amor pela escola de samba Estação Primeira de Mangueira na faixa Sala de Recepção. Cartola foi um dos fundadores da Mangueira e compôs o primeiro samba da escola, intitulado Chega de Demanda. Além dessas músicas eu também ressalto as faixas Preciso Me Encontrar, única faixa não composta por Cartola, e Não Posso Viver Sem Ela, samba que confirma as palavras do compositor quando ele diz que gosta de falar de mulher.

Ta aí mais uma dica. Samba de primeira, sofisticadíssimo. E só pra completar, Cartola era tricolor, assim como quase todos os grandes nomes da nossa música. Então pode confiar que o som vale a pena escutar.

Hehe.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Melhor do que o silêncio só João

Passeado pela internet recebi uma notícia muito boa. Um dos maiores nomes da nossa música resolveu sair de um silêncio que durava quase uma década. João Gilberto vai subir aos palcos em uma homenagem aos 50 anos da Bossa Nova. Ele fará quatro apresentações em três cidades diferentes. Infelizmente a cidade onde eu moro está fora da rota dos shows dos grandes artistas, e não seria diferente desta vez. As cidades escolhidas foram São Paulo, nos dias 14 e 15 de Agosto, Rio de Janeiro, no dia 24 de Agosto e 05 de Setembro em Salvador. Além das apresentações no Brasil ele tem mais alguns shows agendados no exterior, incluindo no Carnegie Hall, em Nova Iorque – local do lendário concerto da Bossa Nova em 1962, e apresentações no Japão. Quem sabe eu consiga ir a algum dos concertos aqui no Brasil, de preferência lá no Rio, local mais acessível para mim.




E falando em João Gilberto, lembrei de um disco que sinceramente está na minha lista dos melhores da música brasileira. Falo do álbum Amoroso, lançado em 1977.




Esse disco, em minha opinião, é o mais bem acabado do João Gilberto. O arranjo das músicas ficou muito bom, um som que preenche os sete buracos da sua cabeça, e o melhor de tudo é ouvir o João cantando bonito, mais do que em todos os outros álbuns. Oito músicas fazem parte do repertório. Alguns clássicos da Bossa Nova como Wave, Triste e Caminhos Cruzados e clássicos da música mundial como Besame Mucho e Estate. Mas as minhas faixas preferidas são Tim tim por tim tim, um samba com a cara do João e ‘S Wonderful, oportunidade rara de ouvi-lo cantando em inglês. A outra faixa é Zíngaro, composição de Chico Buarque e Tom Jobim, que também é conhecida com o nome Retrato em Branco e Preto, devido a um problema de diferenças de idéias de Chico e Tom, mas isso é outra história.
Fica aí a dica do Amoroso, vale muito a pena escutar. Quanto aos shows, tomara que o João volte sendo o mesmo João, aquele que com sua voz e seu violão encanta todo o público que vai assisti-lo, aquele que reclama do microfone, do ar-condicionado, do barulho da platéia, enfim, João Gilberto.

Faixas do disco:

01-'S Wonderful
(George e Ira Gershwin)
02-Estate
(Bruno Martino - Bruno Brighetti)
03-Tim tim por tim tim
(Geraldo Jacques - Haroldo Barbosa)
04-Besame mucho
(C.Velaquez)
05-Wave
(Tom Jobim)
06-Caminhos cruzados
(Newton Mendonça - Tom Jobim)
07-Triste
(Tom Jobim)
08-Zíngaro
(Chico Buarque - Tom Jobim)

Fui!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Let Jimi take over



“Hendrix toca no Bag O’Nails, na Kingly Street. Vamos lá também. Pete Townshend presente, e Eric Clapton está quase irreconhecível. Acaba de retornar de Paris e parece um elegante dândi francês, cabelo à escovinha e suéter de caxemira bem justa. Na hora em que Hendrix sobe ao palco, o clube está tão quente e lotado que o vapor condensado escorre pelas paredes. O suor também desliza pelas minhas costas quando Hendrix inicia a característica e pesada introdução de “Purple Haze”. Reclamo: “Não estou vendo ele!” Sinto-me desfalecer imprensada na multidão, desejando não ter tomado três potentes doses de tequila. Alguém me ergue sobre os ombros para que eu possa ver o palco. Jovem, muito magro, negro, com o cabelo crespo que o envolve com um halo, Hendrix está com a guitarra pendurada bem baixo e ligeiramente distante do corpo, mas mesmo assim faz com que ela grite de maneira desafiadora, embora não pareça que seus dedos estejam se mexendo. Ele acaba por cair de joelhos e começa a tocar com os dentes. Ficamos espantados. Sinto um pânico momentâneo, achando que ele pode ser eletrocutado. Pete e Eric estão de boca aberta, mas nada dizem, e Hendrix termina com um floreio polifônico de ódio e lamentação. Quando desce do palco para falar com Townshend e Clapton, mostra-se tão tímido e respeitoso que ficamos todo encantados.


Artigo escrito por Penny Valentine, influente crítica da música pop, em 1967.



“Estávamos tocando um dos shows do Experience num clube, no norte da Inglaterra, completamente diferente de Londres. Quando todos viram Noel, Mitch e, em especial, a mim, não sabiam que diabos estava acontecendo. Deviam pensar que éramos de Júpter ou de Saturno. Alguns homens ficavam cochichando sobre ‘aquele negro’ e fazendo comentários bastantes grosseiros a respeito de Noel e Mitch. Continuamos a tocar, e de vez em quando os caras pareciam se descontrair e prestar alguma atenção na música. Eles realmente se animaram na hora de ‘Hey Joe’. Depois que terminamos, um grandalhão de cara vermelha, do tipo brigão, se aproximou de mim e disse: ‘Neguinho, você tem dedos mágicos.’”


Jimi Hendrix



Trechos tirados do livro Jimi Hendrix: a dramática história de uma lenda do rock, Sharon Lawrence.












quinta-feira, 3 de abril de 2008

" E que o Chico Buarque de Hollanda nos resgate..."

Dia desses ouvi uma música no rádio que sinceramente deixou-me muito preocupado. A música era de uma dupla sertaneja de enorme sucesso chamada Vitor e Léo. Não sei qual é o nome dela, e também não interessa saber, mas sei que ela dizia uma coisa assim:

“Que vida boa,
Sapo caiu na lagoa...”


Deixou-me preocupado pelo fato de imaginar até onde vai essa pobreza lírica da música popular brasileira atual. Não sou nenhum grande conhecedor de literatura, mas só de pensar que já tivemos na nossa música poetas e letristas do nível de Chico Buarque, Caetano Veloso e Vinícius de Moraes fazendo sucesso nas rádios e na cabeça do povo, hoje, infelizmente, temos de aturar coisas como essa que eu acabei de citar.

Caetano tem toda razão. Tomara que não só o Chico Buarque nos resgate, mas que novos compositores não tentem e não consigam piorar o que já está muito ruim.


E xeque-mate!



quinta-feira, 6 de março de 2008

Tropicália

Bem, depois de um longo tempo sem postar até parece que eu esqueci desse blog, mas não, é porque não estive muito inspirado para escrever aqui ultimamente, mas enfim, estou aqui e trago mais uma dica de leitura.
Ganhei de presente da minha mãe um livro de uma qualidade excepcional. Falo do livro Tropicália: uma revolução na cultura Brasileira.

Este livro foi lançado em 2007 em homenagem aos 40 anos de Tropicália e é um documento riquíssimo para os adoradores do movimento. Um projeto altamente bem feito e organizado por Carlos Basualdo. Faz uma perspectiva geral do que foi o Tropicalismo em suas diversas áreas da cultura.
No livro são inseridos ensaios contemporâneos escritos por Carlos Basualdo, Flora Süssekind, Ivana Bentes, Celso Favaretto, Christoper Dunn e Hermano Vianna falando de música, cinema, artes plásticas, literatura e tudo mais o que diz respeito a tropicália.
Também é constituído de uma coletânea de textos históricos dos principais nomes do movimento, nomes como Caetano Veloso, Hélio Oiticica, Torquato Neto, Gilberto Gil, Glauber Rocha e grandes incentivadores e “companheiros” como Oswald de Andrade, Augusto de Campos, Nelson Motta além de um acervo de fotos muito rico.
Além de um design moderno é um livro bonito, cheio de cores e conteúdo. O preço ainda é um pouco salgado, mas faz jus à qualidade. Vale a pena conferir.



Foto da capa do disco-manifesto do Topicalismo que reunia grandes artistas como Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa, Rogério Duprat, Nara Leão - sim, ela esta aí - , Caetano Veloso e os Mutantes.